Fim de tarde de uma quinta-feira, como outro qualquer.
Dei uma passada no cinema para recarregar minhas energias, deixar o acúmulo de um dia de trabalho fora da sala de cinema.
Estreando: Un Prophète, do diretor francês Jacques Audiard.
Parei para dar uma conferida na crítica, afixada no mural do Reserva Cultural.
Para falar a verdade, não me ative ao que estava escrito porque o filme ia começar. Li apenas que se tratava de um filme sobre árabes, ou coisa parecida. Pronto, já aguçou minha curiosidade.
Opa, bacana, é esse mesmo. Filme escolhido.
Achei que, pelo título do filme, relaxaria e passaria algumas horas, sossegada.
É por isso que creio que não devemos julgar o produto pela embalagem, pelo nome. Mas, nesse caso, me dei bem. Muitíssimo bem, aliás.
Depois de duas horas e meia de pura adrenalina, confesso que fiquei torta na poltrona, mas não desgrudei os olhos do telão nem por um segundo sequer.
Bem, vamos começar com a história do profeta, ou melhor, de Malik El Djebena, rapaz de dezenove anos que é condenado a seis anos de prisão por ter agredido policiais na França.
E é lá que o filme se passa, mais precisamente numa penitenciária francesa, com maioria de detentos árabes e corsos.
A primeira cena do filme, para mim, é muito marcante, pois mostra o protagonista barbudo, sujo, coçando a cabeça, mãos trêmulas, tentando farejar o que o espera. Assustado, feito um animal selvagem, acuado e amedrontado, Malik parece estar num buraco escuro e claustrofóbico, enquanto espera seu destino.
O roteiro do filme não traz informações sobre o passado de Malik, é como se a vida dele começasse ali, na prisão. Sabemos apenas que é de origem árabe, que fala os dois idiomas: árabe e francês, e que é analfabeto; além de ter passagens por reformatórios e diversas cicatrizes pelo corpo.
Malik é um jovem sem identidade e referências: sem família, passado e religião - o que faz dele um personagem ainda mais instigante. O que mais impressiona é o porte físico do ator, para o papel - excessivamente magro, frágil, com um ar de garoto abandonado -, e de como se transforma física e mentalmente ao longo da história; como uma página em branco, que foi se moldando e se adaptando para sobreviver e tirar proveito das situações, agarrando todas as oportunidades para ter uma vida melhor, menos imunda e humilhante. Além de deter o poder consciente de transformar sua personalidade e face diante aos acontecimentos, recuperando o controle da vida dele. Entra analfabeto e sai graduado, pelo fato de ter estudado. Ora, até Economia e o idioma dos corsos aprendeu.
Esse poderia ser mais um filme sobre sistemas prisionais, mas é justamente a construção complexa e a evolução da personalidade do protagonista que faz de Un Prophète um dos melhores do gênero.
Esse poderia ser mais um filme sobre sistemas prisionais, mas é justamente a construção complexa e a evolução da personalidade do protagonista que faz de Un Prophète um dos melhores do gênero.
Ainda mais porque o elenco escolhido é genial, como o novato Tahar Rahim, ator praticamente desconhecido no cenário cinematográfico francês; e o veterano Niels Arestrup, que faz o papel de César Luciani, o chefão da máfia corsa que, forçosamente, introduz Malik no mundo do crime, dentro e fora da penitenciária, e o faz um assecla de seu esquema, o árabe muçulmano fazedor do serviço sujo.
Como o filme estreou em junho por aqui, agora, só em DVD.
E não escrevo mais porque perde a graça.
E não escrevo mais porque perde a graça.
- Corram, cinéfilos, corram!
(obs. importantíssima: sem falar que, mon Dieu!, Tahar Rahim é uma pintura da natureza, e eu estou apaixonada por ele, eheheheh)
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