sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Camille


Piero teria de se casar brevemente com a moça da aldeia: Marmar, a namoradinha dos tempos de menino. Brincaram juntos, trocaram juras inocentes de amor até. A brincadeira e as juras transformaram-se em compromisso, talvez conveniência entre as famílias, costume enraigado de correrem pelas colinas de mãos dadas - carinho e cumplicidade que resistiram ao tempo.
Mas ele saiu da aldeia, desceu a montanha, foi buscar novas oportunidades na cidade grande, para proporcionar uma vida mais confortável e promissora ao casal.
Piero era ingênuo, alma pueril, por isso mesmo estava apto a experimentar novas histórias, absorver o que aquele misterioso espaço de concreto e aço tinha a lhe oferecer.
E os olhos dele brilharam, ávido pelo que estava por vir.

Piero sempre gostou de caminhar, fazia isso todas as manhãs, na aldeia, acompanhado de Quick, seu cão de estimação.
Ali, não seria diferente. E pela cidade andou, andou, andou muito, a fim de conhecer cada beco, rua e construção, tendo o Mar Mediterrâneo como cenário principal.
E foi numa tarde de verão que ele cruzou o caminho de Camille. A partir desse encontro, o destino de Piero mudou drasticamente.
Trocaram olhares, sorrisos encabulados. Camille caminhava lentamente, vestia uma saia florida, justa - que acentuava ainda mais seus contornos impecáveis -, ancas estreitas, pernas longas, nádegas bem desenhadas. A nuca estava à mostra, alguns fios dos cabelos negros desciam pelo pescoço longilíneo, adornado com um fio dourado grafado "Camille" com dois "l" no pingente.
A pele era alva, seios fartos, a boca de um rosado profundo, olhos acinzentados e expressivos, cílios negros e abundantes, uma pintura natural coloria as pálpebras e as unhas bem feitas.
Uma brisa suave a movimentar o lenço de seda e a espalhar o perfume inebriante de Camille pelo ar.
Oh! Quanta beleza e delicadeza, pensou Piero.

Ele decidiu, naquele momento, que precisava reencontrar Camille, tocar seus lábios levemente com os dedos. Cerrou, então, os olhos e pôs-se a imaginar: como será a textura da pele? E a temperatura do corpo junto ao meu?
Piero jamais havia sentido tais reações e emoções com Marmar. Ele a amava, estava certo disso, mas nunca sentiu tamanha atração e desejo por ela.

As mãos de Piero tremiam, o coração passou a bater em descompasso. Olhou para trás, com a intenção de vê-la mais uma vez, mas Camille havia desaparecido entre o frenético vai e vem de pessoas.
Sonhou, sonhou muitas noites com Camille, idealizando o encontro perfeito.
Dia após dia, Piero refez o mesmo caminho, na esperança de cruzar com ela. Não importava se chovia ou fazia sol, lá estava ele, exaustivamente, a rastrear os passos de sua bela Camille.
Aquilo começou a afetar a vida de Piero e a preocupar Marmar, pois fazia muito tempo que não voltava à aldeia para vê-la.
Pois foi na primeira semana do inverno que chegava que Piero teve a feliz surpresa: avistou Camille entrando num beco sujo no centro da cidade; ele correu desesperadamente para alcançá-la, mas ela, ofegante, apressou-se a entrar num desses hotéizinhos baratos da área.
Piero ficou confuso, excitado, não sabia se entrava para, finalmente, apresentar-se a Camille ou a aguardava em frente ao hotel.
Depois de muito esperar, Piero viu Camille sair: cabelo desgrenhado, roupa rasgada, mãos sujas, olhos aflitos, sangue escorrendo pelo canto da boca.
Piero aproximou-se, tocando delicadamente seu ombro: - Camille, é este seu nome, não é? Estou aqui a esperar-te faz horas, podemos conversar?
- Quem é você? Como sabe meu nome?, retrucou asperamente.
Piero explicou toda a história, desde a primeira vez que a viu na rua da orla.
- Por quê está machucada? Quem fez isso? Venha, venha comigo, Camille! Posso protegê-la, cuidar de ti.
A voz de Piero a acalmava, e era disso que mais precisava naquele momento.
Camille deixou-se levar. Sentia uma estranha familiaridade na voz de Piero, tentou decifrar, em silêncio, por que confiava no tal desconhecido.
Ela era avessa à loquacidade. Sempre foi discreta, reservada, expressava-se pelos gestos e o olhar - aliás, elementos indispensáveis para conquistar sua devota e maciça freguesia.
Devido a seus incríveis dotes e habilidades, era uma meretriz disputada por seus clientes.
Desde pequena fazia sucesso com a molecada, que esperavam-na passar nas ruas de Moscou para espiar seus graciosos movimentos dentro das saias justas que costumava usar.
- Corram, corram, Camille vem aí, bradava a meninada!

(...)


obs.: sem pretensões literárias, talvez termine, um dia, esta história, que de alguma forma foi real.

4 comentários:

leila disse...

Por isso que eu gosto de vir aqui.
Sempre tem coisas bonitas de se ver e deliciosas de se ler.
Posso pedir uma coisa? Termine essa história linda!!!
Bjs

annah disse...

Nossa, Leila, obrigadíssima pelas palavras carinhosas. :o)
Saiba que são um grande incentivo para mim. ;)

Beijo enorme e um excelente domingo, semana...!

luiz carlos disse...

vou esperar ansiosamente pela continuidade desse belíssimo texto. ;)
beijos, annah.

annah disse...

Luiz, obrigadão!
Você é um querido.

Mas, olhe, quando a inspiração voltar, ok? Por enquanto, tente imaginar um desfecho para a história de amor de Camille e Piero. ;))

Beijoca!