Becharreh (aldeia natal de Khalil Gibran)Norte do Líbano - Verão de 2000
[foto: adriana hanna]
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.
Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: "Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude." Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: "É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo." Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: "É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua." Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: "É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros."
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.
Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.
Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma...
Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em cobras pintalgadas.
E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.
(extraído de "Temporais")
10 comentários:
minha flor, esse poema me toca imensamente. porque às vezes é assim que me sinto. um estrangeiro neste mundo, um "eu" incompreensível. e é por isso que busco formas de atingir esse mundo e entender esse "eu", pela arte, pela percepção profunda de tudo o que me rodeia, por você...
beijos e beijolas! ;)
Meu queridíssimo,
Você me deixa sem palavras...
:o))
Beijo, beijolas e afins! ;D
Uma estrangeira, sentimento perfeito. Machuca às vezes isso, sabia? Lindíssimo texto, lindíssimo.
Sou escorpião sim:) É bom? ;)
Entendo quase nada...rs
beijocas e linda semana
Bem, Sandra, eu sou suspeita porque tenho paixão por escorpiano(a)s.
Ou seja, tenho grandes amigos de Escorpião. São pessoas que têm uma personalidade ímpar, que têm o poder de desnudar a alma do outro sem precisar dizer uma só palavra, o olhar diz tudo. Difícil enganar pessoas desse signo.
Vão do inferno ao céu, alcançam o êxtase e podem chegar ao fundo do poço sem alardear ou se lamentarem. Caem, sacodem a poeira, erguem-se altivos e sabem, como poucos, encarar a vida com realismo e sabedoria.
Enfim... adooooro, heheheh. ;))
Estes versos de Gibran traduzem perfeitamente o que sinto. Lindo demais, né?
Outra beijoca!
Dri, eu ja tinha visto este texto e admiro muito
preciso te linkar direito pq nao aparece que vc atualizou pra mim.rssss
bjsss
Nossa que maravilhoso.
Sou um estrangeiro...
Me identifiquei muito com o texto.
Lindo blog.
Beijos.
Lindo, né, Drica?
Gibran toca fundo. Ufa! ;)
Eita, meu link tá bichado, é? rsssss
É que você me lincou pelo feed, eu acho.
Beijo!
Obrigada pela visita e palavras, Gaby.
Seja muito bem-vinda! ;)
Você sendo uma poetisa, também sabe tocar o coração das pessoas com seus versos.
Beijo!
"Ya Habibi, Ya Lubnan" ;)
Aldeia feinha!!! rsrsrsrsrsrs
bs
Seu antipático... feinha, né? Humpft.
Fi ahla man Lubnan? Abadan! ;))))
Beijo, querido!
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