segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sebo nas canelas

Ontem fui jantar sozinha, como às vezes gosto de fazer, num restaurante que não conhecia. Adoro experimentar novos pratos e ambientes. Então, como não conhecia o menu da casa, pedi a sugestão do garçom, que, aliás, foi bastante feliz nas escolhas: torradas e patês, de entrada; salada de iscas de frango, alface e croutons; e, para o prato principal, risoto, acompanhado de fritas e filet. Hummm, bom, bom, bom.
Sentei-me num canto, perto da janela, queria ver o vai-e-vem das pessoas, a agitação corriqueira das ruas de São Paulo.
Prefiro degustar as refeições tranqüilamente, apreciando esta arte com todos os meus sentidos.
Ao meu lado, duas mulheres conversavam animadamente. Com a espera pelo prato de entrada, foi inevitável não escutar o diálogo entre as duas, que falavam alto.
Confesso que não estava interessada no que diziam, a voz de uma delas era irritante, me soava pedante, dona de uma verdade falsamente absoluta, até mesmo para ela, já que afirmava aquilo tudo com uma veemência frágil e tola, pois o grau de irritabilidade nas palavras denunciavam uma construção egóica raquítica e subdesenvolvida, uma "estátua de sal", como ela mesma definiu sua vítima - a personagem da noite e a dor-de-cabeça delas, pelo visto.
É incrível como as pessoas são eloqüentes e craques em teorias mirabolantes, que, na maioria das vezes, caem por terra na primeira tentativa de exercitá-las.
Pois bem, para minha felicidade, a entrada estava ótima, desviando minha atenção. Não deixei sequer uma migalha de torrada no prato. Lambi os beiços. Passei a me ater aos transeuntes, que se movimentavam freneticamente pela calçada, conversavam alegremente... risos, passos, buzinas.
Mas a voz daquelas mulheres se sobrepunham ao barulho da cidade. Pensei na salada, a tal da "Rafael". Será mesmo boa? Sou uma "bom-garfo", isso sim.
Minha Nossa, que voz irritante, a da mulher, pensei. Impossível não ouvir o que falava, quase um monólogo, na verdade. Ela bradava e a outra, concordava.
Pois o papo era brabo, ou seja, as duas reservaram o domingo para analisar, julgar e condenar a amiga em comum, criticando os dotes físicos e morais da ré, sem direito à defesa, é claro.
Os comentários eram insistentes e constrangedores.
Um saco, um tédio. Ai de mim. Vem logo, "Rafael"! Na falta de algo melhor, saquei da bolsa o shampoo que havia acabado de comprar, para ler o rótulo: "esqueça-se do desgaste diário",... aqua, citric acid, pareth sulfate, ceramide 2.

- Vulgar, vulgar, vociferava ela! Será que não se enxerga? Uma mulher de 45 anos vestindo roupas daquele tipo, mantendo cabelo de pantera e maquiagem de gatinha. Eu gosto dela, mas, convenhamos, isso é ridículo. Ela quer competir com você, percebeu? Ah, não!

Ahan!, puxa vida, deve gostar muito, pensei.
Glub, glub, meu suco descia seco. Muitos goles para aliviar: - Traga-me mais um, gelo à parte, por favor, Seu garçom.

- Vê como cortei o cabelo?, completou. Um chanelzinho básico, clássico. Reconheço meu corpo e idade, não saio por aí dando vexame e showzinho barato.

Forçosamente, virei-me para observá-la, precisava checar se a descrição correspondia ao perfil real da loba-uivante, além de detectar de onde vinha tanta amargura.
Bela até, um pouco cheinha, a camisa branca denunciava suas gordurinhas localizadas; o cabelo, "estilo chanel", a envelhecia, porém, o rosto e a pele eram intactos, sem rugas nem marcas de expressão. No entanto, a alma era incrivelmente pesada, aparentando uns 80 anos, ou mais - muito, muito mal vividos, creio eu.
Antes de dar as últimas garfadas, pedi a conta. Nunca engoli três pratos com tanta pressa e agonia, queria sair logo dali.
Dizem que "mulheres não são confiáveis", que "mulher não é amiga de mulher" etc e tal. Não acredito nesses ditados populares, nessas crenças absurdas. Pra mim, gente infeliz é gente infeliz, independentemente do sexo. Mas posso afirmar que meu fim de noite me deixou pensativa e arrepiada, de verdade.
Ao voltar para casa, caminhando calmamente, fiquei pensando que será que não havia nada mais interessante a se falar do que achincalhar a reputação da amiga em questão??? Valha-me Deus!

- Poderíamos repetir esse programinha delicioso todos os domingos, fazer isso uma rotina, não é mesmo?

"Uma rotina", "uma rotina", "uma rotina", palavrinha que definia perfeitamente um dos traços da índole das duas mulheres.
Como precaução, é certo, tratarei de mudar meu horário e dia, quando voltar àquele restaurante.
Curiosamente, numa das paredes do salão principal, havia escrito "seja feliz todos os dias", mas a mulher estava de costas, ou deu as costas, para tal mensagem, para a vida.

#

6 comentários:

leila disse...

Você tem o dom de fazer a gente se transportar para a cena.
Adorei o texto e o puxão de orelha.
Eu tenho 40tão, uso cabelão e me acho a maior gatinha.
Sabe de uma coisa, quero que essas mal amadas se lixem!!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Beijão

ps: Adorei o Leilinha!!!

Anônimo disse...

Oi Annah!!!
Sempre leio seu blog mas é a 1a vez que me apresento. Esse post ficou show de bola.... como sempre!
Tem umas figurinhas iguais a essas no meu trabalho. Tremo dos pés a cabeça quando ouço os risinhos cínicos e as piadas internas delas. Tenho asco de gente assim!!!!
Bjs,
Marcia P.

bia souza disse...

Drikeeeeeeee's, minha linda do coração!!!!!!
Obrigada por tanto carinho!!!!!
Tudo bem, eu sei que essas coisas não devemos agradecer. hihihi
Vc é demais!!!!!!!!!!!
Sobre o post.... rsrsrs Queria ver sua cara de saco cheio, na hora.
Nem falo nada, vc sabe minha opinião sobre esse tipo de coisa. Acho o fim da picada quando as pessoas fazem questão de falar alto pra todo mundo escutar. Como vc mesma disse, gente infeliz e falta de educação independem do sexo da pessoa. ECaaaaa! rsrsrsssrs
Bjssssssssssssss

annah disse...

Leilinha,
Tenho certeza de que vc deve ser "mó gatona"! ;))
Olhe, se formos dar ouvidos ao que os outros pensam, ou esperam da gente, ai, ai, ai, seria um Deus nos acuda.
Viva o cabelão, a maquiagem de gatinha e a melhor idade de uma mulher, a da beleza aliada à experiência.

Beijoca, Leiloca (ih, rimou! rsssss).

annah disse...

Márcia, obrigada pela visita, seja bem-vinda.

Hahahahaha, ó, desculpe-me pela risadona, mas é que fiquei imaginando você, na empresa, se contorcendo a cada risadinha e piadinha das tais "colegas" de trabalho.
Ei, por quê não pede um adicional de insalubridade por ter de agüentar essas malas sem alça, hein??? :>>>
Minha Nossa, ninguém merece.

Beijão!

annah disse...

Minha querida Bia,

Você é um encanto de pessoa, sua amizade é um presente maravilhoso que Deus me deu.

Nem me fale em cara de saco cheio. Cê sabe que não sei disfarçar, sou expressiva. Acho que a mulher até notou minha cara de "hã, como assim????"
E, pode crer, ela falava muito alto, manja aquele tipo de pessoa que precisa urrar suas amarguras para o mundo?
Afe Maria, tô fora. Sebo nas canelas, aliás. :>

Beijão!