
Os personagens:
A mãe e seus dois filhinhos.
A cena:
O filhinho, arrebentando a boca do balão na fila do banco; a mãe, sem sucesso, implorando para seu pimpolho parar de bagunçar; a filhinha, comportada, esperando pacientemente; e eu, atrás deles, na fila.
O diálogo:
- Raul, se você não parar, esta moça (eu, no caso) vai falar para o Papai Noel não trazer seus presentes, viu.
O menino olhou para mim aterrorizado e saiu correndo para se esconder atrás de um vaso. De lá, ele me olhava de soslaio, desconfiado, amedrontado pela ínfima possibilidade de não receber seus presentes tão desejados.
A menininha, que até então estava quietinha, olhou para mim admirada, mas nada falou.
Eu, mesmo sem ser consultada se queria incorporar a função de dedo-duro e palmatória do nosso bom velhinho, acabei assumindo a personagem, para me divertir e passar o tempo, já que aquela fila estava quilométrica e sacal.
Olhei para Raul com uma expressão de reprovação. O que fez com que ele desaparecesse por trás das folhagens do vaso.
Dali há poucos minutos, o molequinho saltava ao redor da mãe, com o olhar colado em mim. Certamente, queria conferir e garantir se meu aspecto correspondia a de uma carrasca natalina.
- Raul, eu disse, seus presentes estão guardadinhos, certo? Estou cuidando deles para você porque sou a assistente do Papai Noel. Mas, olhe, você tem de obedecer sua mãe, combinado?
- Combinado, balbuciou!
Senti-me uma chantagista, de certo modo. Mas, pelo menos, a tática funcionou. Raul parecia como uma mumiazinha, de tão bonzinho e comportado.
Tadinho. Fiquei pensando na inocência das crianças, nas fantasias que elas criam, e que nós, adultos, ajudamos a reforçar.
Nos dias de hoje, é tão lindo poder constatar que essa magia, a magia do Natal, ainda pulsa nos corações da criançada - e de uma forma tão poderosa e... convincente, devo destacar. (eheheheheh)
De repente, e para minha grata surpresa, Mirela, a menininha que permanecia calada, virou-se, olhou fixamente para mim e soltou, com uma voz firme porém suave, uma das coisas mais bonitinhas que escutei nos últimos tempos:
- Assistente, posso pedir uma coisa? Você jura que trará uma Susi para mim, essa é a boneca mais linda do mundo, e esse foi meu único pedido para o Papai Noel. Você jura, assistente?
Vocês, caros leitores, podem imaginar minha cara de boboca e de encantamento.
É, mesmo que atrelado ao consumismo e blablablá, esse é o espírito magnífico do Natal.
Feliz Natal, pessoal, e um 2009 supimpa e cheinho de energias do bem e realizações bacanérrimas a todos vocês!
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