domingo, 21 de dezembro de 2008

Espírito natalino


Os personagens
:
A mãe e seus dois filhinhos.

A cena:
O filhinho, arrebentando a boca do balão na fila do banco; a mãe, sem sucesso, implorando para seu pimpolho parar de bagunçar; a filhinha, comportada, esperando pacientemente; e eu, atrás deles, na fila.

O diálogo:
- Raul, se você não parar, esta moça (eu, no caso) vai falar para o Papai Noel não trazer seus presentes, viu.
O menino olhou para mim aterrorizado e saiu correndo para se esconder atrás de um vaso. De lá, ele me olhava de soslaio, desconfiado, amedrontado pela ínfima possibilidade de não receber seus presentes tão desejados.
A menininha, que até então estava quietinha, olhou para mim admirada, mas nada falou.
Eu, mesmo sem ser consultada se queria incorporar a função de dedo-duro e palmatória do nosso bom velhinho, acabei assumindo a personagem, para me divertir e passar o tempo, já que aquela fila estava quilométrica e sacal.
Olhei para Raul com uma expressão de reprovação. O que fez com que ele desaparecesse por trás das folhagens do vaso.
Dali há poucos minutos, o molequinho saltava ao redor da mãe, com o olhar colado em mim. Certamente, queria conferir e garantir se meu aspecto correspondia a de uma carrasca natalina.
- Raul, eu disse, seus presentes estão guardadinhos, certo? Estou cuidando deles para você porque sou a assistente do Papai Noel. Mas, olhe, você tem de obedecer sua mãe, combinado?
- Combinado, balbuciou!
Senti-me uma chantagista, de certo modo. Mas, pelo menos, a tática funcionou. Raul parecia como uma mumiazinha, de tão bonzinho e comportado.
Tadinho. Fiquei pensando na inocência das crianças, nas fantasias que elas criam, e que nós, adultos, ajudamos a reforçar.
Nos dias de hoje, é tão lindo poder constatar que essa magia, a magia do Natal, ainda pulsa nos corações da criançada - e de uma forma tão poderosa e... convincente, devo destacar. (eheheheheh)
De repente, e para minha grata surpresa, Mirela, a menininha que permanecia calada, virou-se, olhou fixamente para mim e soltou, com uma voz firme porém suave, uma das coisas mais bonitinhas que escutei nos últimos tempos:
- Assistente, posso pedir uma coisa? Você jura que trará uma Susi para mim, essa é a boneca mais linda do mundo, e esse foi meu único pedido para o Papai Noel. Você jura, assistente?

Vocês, caros leitores, podem imaginar minha cara de boboca e de encantamento.
É, mesmo que atrelado ao consumismo e blablablá, esse é o espírito magnífico do Natal.

Feliz Natal, pessoal, e um 2009 supimpa e cheinho de energias do bem e realizações bacanérrimas a todos vocês!
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ignácio Horácio

Ignácio Horácio com 1 aninho

Meu peixinho Ignácio Horácio foi-se embora, me deixou, foi pra "terra-dos-pés-juntos" dos peixinhos dourados, depois de quase dois anos fazendo da minha casa um lugar ainda mais alegre e colorido.

Juro por Deus, nunca mais, nunquinha mesmo, aprisiono um peixinho num aquário. Muita maldade minha, egoísmo imenso. Ele sofre(u). Eu sofro. E, valha-me Deus!, como estou sofrendo, como chorei. Merecidamente, aliás.
Esse troço de bichinho de estimação é um caso sério. Foi assim com o Pililico, meu gato, e com o Luguer, meu pastor-alemão. Um chororô danado.

Bem, poderia escrever muito sobre o Ignácio, mas estou triste demais pra isso.
Durma em paz, meu amiguinho!
Já estou com saudades.
:'(

sábado, 6 de dezembro de 2008

Num sábado, por Annah, na Pinacoteca - Parte II













Almeida Júnior

Almeida Júnior















Na Pinacoteca, tudo é transcendental,
a mulher numa pose contemplativa, quase uma escultura viva,
combinada com a real, do lado de cá


Três Figuras, de Lasar Segall

Retrato de Baby de Almeida, de Reis Júnior



O Violeiro, de Almeida Júnior

[fotos: adriana hanna]
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sebo nas canelas

Ontem fui jantar sozinha, como às vezes gosto de fazer, num restaurante que não conhecia. Adoro experimentar novos pratos e ambientes. Então, como não conhecia o menu da casa, pedi a sugestão do garçom, que, aliás, foi bastante feliz nas escolhas: torradas e patês, de entrada; salada de iscas de frango, alface e croutons; e, para o prato principal, risoto, acompanhado de fritas e filet. Hummm, bom, bom, bom.
Sentei-me num canto, perto da janela, queria ver o vai-e-vem das pessoas, a agitação corriqueira das ruas de São Paulo.
Prefiro degustar as refeições tranqüilamente, apreciando esta arte com todos os meus sentidos.
Ao meu lado, duas mulheres conversavam animadamente. Com a espera pelo prato de entrada, foi inevitável não escutar o diálogo entre as duas, que falavam alto.
Confesso que não estava interessada no que diziam, a voz de uma delas era irritante, me soava pedante, dona de uma verdade falsamente absoluta, até mesmo para ela, já que afirmava aquilo tudo com uma veemência frágil e tola, pois o grau de irritabilidade nas palavras denunciavam uma construção egóica raquítica e subdesenvolvida, uma "estátua de sal", como ela mesma definiu sua vítima - a personagem da noite e a dor-de-cabeça delas, pelo visto.
É incrível como as pessoas são eloqüentes e craques em teorias mirabolantes, que, na maioria das vezes, caem por terra na primeira tentativa de exercitá-las.
Pois bem, para minha felicidade, a entrada estava ótima, desviando minha atenção. Não deixei sequer uma migalha de torrada no prato. Lambi os beiços. Passei a me ater aos transeuntes, que se movimentavam freneticamente pela calçada, conversavam alegremente... risos, passos, buzinas.
Mas a voz daquelas mulheres se sobrepunham ao barulho da cidade. Pensei na salada, a tal da "Rafael". Será mesmo boa? Sou uma "bom-garfo", isso sim.
Minha Nossa, que voz irritante, a da mulher, pensei. Impossível não ouvir o que falava, quase um monólogo, na verdade. Ela bradava e a outra, concordava.
Pois o papo era brabo, ou seja, as duas reservaram o domingo para analisar, julgar e condenar a amiga em comum, criticando os dotes físicos e morais da ré, sem direito à defesa, é claro.
Os comentários eram insistentes e constrangedores.
Um saco, um tédio. Ai de mim. Vem logo, "Rafael"! Na falta de algo melhor, saquei da bolsa o shampoo que havia acabado de comprar, para ler o rótulo: "esqueça-se do desgaste diário",... aqua, citric acid, pareth sulfate, ceramide 2.

- Vulgar, vulgar, vociferava ela! Será que não se enxerga? Uma mulher de 45 anos vestindo roupas daquele tipo, mantendo cabelo de pantera e maquiagem de gatinha. Eu gosto dela, mas, convenhamos, isso é ridículo. Ela quer competir com você, percebeu? Ah, não!

Ahan!, puxa vida, deve gostar muito, pensei.
Glub, glub, meu suco descia seco. Muitos goles para aliviar: - Traga-me mais um, gelo à parte, por favor, Seu garçom.

- Vê como cortei o cabelo?, completou. Um chanelzinho básico, clássico. Reconheço meu corpo e idade, não saio por aí dando vexame e showzinho barato.

Forçosamente, virei-me para observá-la, precisava checar se a descrição correspondia ao perfil real da loba-uivante, além de detectar de onde vinha tanta amargura.
Bela até, um pouco cheinha, a camisa branca denunciava suas gordurinhas localizadas; o cabelo, "estilo chanel", a envelhecia, porém, o rosto e a pele eram intactos, sem rugas nem marcas de expressão. No entanto, a alma era incrivelmente pesada, aparentando uns 80 anos, ou mais - muito, muito mal vividos, creio eu.
Antes de dar as últimas garfadas, pedi a conta. Nunca engoli três pratos com tanta pressa e agonia, queria sair logo dali.
Dizem que "mulheres não são confiáveis", que "mulher não é amiga de mulher" etc e tal. Não acredito nesses ditados populares, nessas crenças absurdas. Pra mim, gente infeliz é gente infeliz, independentemente do sexo. Mas posso afirmar que meu fim de noite me deixou pensativa e arrepiada, de verdade.
Ao voltar para casa, caminhando calmamente, fiquei pensando que será que não havia nada mais interessante a se falar do que achincalhar a reputação da amiga em questão??? Valha-me Deus!

- Poderíamos repetir esse programinha delicioso todos os domingos, fazer isso uma rotina, não é mesmo?

"Uma rotina", "uma rotina", "uma rotina", palavrinha que definia perfeitamente um dos traços da índole das duas mulheres.
Como precaução, é certo, tratarei de mudar meu horário e dia, quando voltar àquele restaurante.
Curiosamente, numa das paredes do salão principal, havia escrito "seja feliz todos os dias", mas a mulher estava de costas, ou deu as costas, para tal mensagem, para a vida.

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