sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Anjos de branco

Dias desses, conversando com minha irmã mais velha, que é médica infectologista, relembramos dos antigos pacientes dela; os aidéticos, especificamente.
Falamos sobre o início da doença, os sintomas, as peculiaridades e casos que qualquer médico enfrenta no exercício de sua profissão e o padecimento dos doentes.
Ela confessou-me que não se lembrava de alguns episódios, já que, depois de mais de 25 anos de profissão, as histórias dissipam-se, confundem-se, condensam-se na memória - talvez, creio eu, devido a um mecanismo de proteção, filtragem e regeneração psicológica e emocional.
Eu, como ávida perseguidora de emoções inusitadas e realidades chocantes, sempre me meti em situações que pudessem saciar os meus impulsos e curiosidade.
Pois bem, lá pelos meus 18 anos, pedi a ela que me levasse a um dos hospitais no qual trabalhava, no setor de infectologia.
E assim, lá fui eu acompanhá-la ao hospital, com minha curiosidade na bagagem, o coração pulsando a mil dentro do peito e a mente em turbilhão; quieta fiquei, olhos esbugalhados, observando e sentindo cada detalhe, expressão, gesto, diagnóstico, olhar, ação, odor, choro, grito, sofrimento...
As pessoas que conheci naquela manhã faleceram semanas, dias depois, em decorrência da inexorável "Síndrome da Imunodeficiência Adquirida", mais conhecida como AIDS.
Duas crianças hemofílicas, um travesti e um médico homossexual foram os personagens reais e as vítimas de uma doença implacável e agressiva, à época.
As histórias dessas pessoas me marcaram, me emocionaram, obviamente, tanto que carrego-as comigo até hoje, depois de 17 anos.

- Lalo - que é como chamamos carinhosamente nossa irmã -, você se lembra do travesti que conheci no dia em que fui ao hospital, e que estava em fase terminal?
- Não, não me lembro, respondeu, olhando-me curiosamente.

O travesti F., vaidoso até o fim da vida, preocupou-se em saber qual era o cabeleireiro que cuidava das madeixas encaracoladas da Dra. G.

- Doutora, preciso perguntar algo muito importante a você, afirmou F.
- Sim, o que quer saber, F.?
Minha irmã, sabendo que o quadro clínico de F. era crítico, pensou que a pergunta seria referente ao estado de saúde dele, ou algo parecido.
- Doutora G., quem foi o glorioso que cortou o seu cabelo? Está deslumbrante! Quero o mesmo corte quando sair desta cama.
F. morreu dias depois, vítima de insuficiência respiratória e acometido pelo "Sarcoma de Kaposi", uma espécie de linfoma (tumor), com feridas imensas que cobriam-lhe a pele.

Ficamos, então, eu e a Dra. G., relembrando fatos pitorescos, engraçados e tristes e procurando as fotos de um pé necrosado de uma das atuais pacientes dela.

- Annah, olhe esses outros pés infeccionados, percebe que estão melhores, com a evolução do tratamento?

Minha irmã sempre foi uma aluna exemplar, primeira da escola, ganhava prêmios pelo desempenho, comportamento e tudo o mais; e, hoje, depois de tanto tempo, vendo-a estudando incessantemente, após a faculdade, residência, especializações, mestrado, doutorado, pós-doutorado, observo o amor incondicional nos olhos dela, que brilham lindamente pela vocação para salvar vidas.
Ela transforma-se quando fala de medicina, de seus pacientes, das pesquisas, teses e estudos, numa busca incansável a fim de diminuir a taxa de mortalidade em hospitais, devido às doenças infecciosas que atingem muitos pacientes internados. Dados alarmantes, segundo ela.

Fiquei observando-a, admirada. As mãos frágeis de minha irmã movimentavam-se freneticamente.

- Passe a câmera para cá, Annah, deixe-me ver as fotos com mais atenção.

Fechei meus olhos, então, e lembrei-me da jovenzinha apaixonada pelos livros de medicina, carregando-os para cima e para baixo. Passos firmes, determinação pontual e um futuro brilhante pela frente, profetizava comigo mesma, na época.
Meu avô paterno, que também era médico, havia pedido a meu pai:

- S., prometa-me que um de seus filhos seguirá meus passos.
A promessa foi cumprida. Dignamente.

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2 comentários:

Leon K. Nunes disse...

Deve ser uma aventura interessante essa dos médicos em trabalhar sempre no limite entre a vida e a morte... é desgastante, ou revigorante, mas em qualquer caso é algo curioso, digno de muita atenção, mas não de julgamento.

Quanto aos pacientes terminais, seja por AIDS ou por outras enfermidades quaisquer, também é muito curioso ver como se portam alguns. De minha parte, eu sempre achei que o leito de morte trazia algo de bom para quem estava nele, que era a liberdade de poder, enfim, olhar para trás. A proximidade da morte nos livra de pensar no futuro, esse futuro que nos aprisiona, e nos deixa livre para apenas rememorarmos nosso passado, vermos o que construímos, o que descontruímos, enfim... pensar sobre a nossa vida, concluir, antes do último adeus, que nossa passagem aqui não foi em vão, nem para os outros, nem para nós. Muito mais triste do que o fim dessas pessoas são o daquelas que, cheias de vida, recebem a visita da morte de maneira tão repentina que mal se dão conta de que estão deixando para trás a maior aventura a que se pode ter direito no universo, que é a de estar vivo... e estar consciente disso.

Saudações!

luiz carlos disse...

vc tem dom de mexer comigo com seus textos.
posso lhe pedir uma coisa? continue escrevendo, não pare nunca. seu leitor e admirador será eternamente grato.
beijos