domingo, 1 de março de 2009

As oliveiras e a terra: riquezas que produzem sabedoria

Apesar da melancolia que transmite,
a camponesa é receptiva, doce e alegre
[tentei conhecê-la aos 14 anos, pela expressão saudosista dela]
Aarges - Zgharta - norte do Líbano - 2000


Nas safras de azeitona, as camponesas sírias vão ao Líbano para trabalhar na colheita, porque boa parte dos libaneses - principalmente os cristãos - não se dignam a se dedicar à lavoura. Atualmente, a maioria da mão-de-obra barata fica por conta de trabalhadores vindos da Síria e do Sri Lanka.
Eu, contrariando o costume, tive a oportunidade de, ao lado de minha mãe, colher azeitonas em nossas terras, herança deixada pelo meu avô materno.
Meus dias como camponesa foram memoráveis e contribuiram para aumentar meu amor pelo Líbano.
Fiz questão de ficar uma semana colhendo azeitonas, limpando minhas mãos na terra e alimentando meu espírito nas oliveiras da aldeiazinha onde minha mãe nasceu. Lembro-me da alegria dela, que parecia uma criança, sentada numa manta estendida no chão, sob os pés das árvores centenárias.
Acordávamos muito cedo, antes mesmo de o sol despontar atrás das colinas e da igreja de Ehden - aldeia de veraneio localizada nas montanhas do norte do país - que avistávamos da nossa casa de pedras brancas.
Preparávamos café, sucos e até lanchinhos que minha mãe teimava em carregar.
Minha função era colher e despejar as azeitonas na manta para que ela pudesse organizá-las. Como ela mesma me explicou, as azeitonas são separadas por qualidade, ou seja, umas são destinadas para extração de azeite e outras, as graúdas, para o consumo em geral.

Meu Deus, como é boa a sensação de ver o sol nascendo entre as oliveiras; ter as mãos repletas (e abençoadas!) de terra, de vida; poder tomar um café fresquinho com aroma de cardamomo; e ter a certeza de que, mesmo sendo um tremendo clichê, precisamos de muito pouco para sermos felizes e termos paz.

Que saudade...!


Mãos maiores que a cabeça
Ela certamente seria uma das musas de Tarsila do Amaral
Aarges - Zgharta - norte do Líbano - 2000


No dia em que a fotografei, ela havia me confessado que, aos 14 anos, teve o rosto tatuado propositalmente para camuflar a beleza dela. Como era apenas uma menina, e ingênua, deixou-se tatuar, afirmou.
Eu disse à camponesa que embora ela não gostasse das tatuagens, as marcas deixadas conferiam-lhe beleza e personalidade.
Ela sorriu mas não concordou.


a netinha dela...
Aarges - Zgharta - norte do Líbano - 2000



[fotos: adriana hanna]

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1 comentários:

Anônimo disse...

Drike's... suas atitudes não me surpreendem!!
Vc É uma pessoa autêntica e aberta a novas experiências, sejam elas quais forem, e sabe contrariar com classe e sabedoria o jeito cordeirinho de ser de certas pessoas.
Minha admiração por vc é do tamanho do meu carinho mais do que imenso!!
TE ADOOOOOOORO!!!
Bjssssssss da Biazita :)