domingo, 18 de outubro de 2009

Gracias a la vida

Faz tempo que não escrevo. Faltava-me inspiração, talvez. Ou motivos.
Ontem, contudo, tive belos, belíssimos momentos; assim, sem esperar, planejar - o que, na verdade, são as melhores coisas da vida: esperar que o inesperado nos encha de felicidade.
Thiago de Mello estava na Casa das Rosas para lançar o novíssimo livro "Thiago de Mello" (Coleção Melhores Poemas; Editora Global) e para receber merecidas homenagens de amigos, colegas, seguidores e admiradores, no Sarau Chama Poética: “O Coração Latino-Americano”.
Poemas musicados. Poemas declamados. Emoção, choro. Choro, mesmo, de uma amiga dele (perdoem-me, mas não me recordo o nome dela agora, só sei que é fotógrafa) que veio do sul do Brasil especialmente para este evento, apesar do mau tempo e aeroporto confuso, como ela confessou.
Fui para ver Thiago. Ansiosa, queria conhecê-lo pessoalmente, ouvi-lo, sentir a energia dele.
Homem franzino, de expressão e rosto suaves, sem as marcas do tempo, apesar da idade avançada. Estava gripado.

- Gripe de cabloco não pega, afirmou.

Subiu ao palco para declamar os poemas do novo lançamento. Livro firme nas mãos. Leitura precisa. Interrompido pela toce, algumas vezes, justificando a gripe que o pegou.
Thiago tem voz doce e grave. Um cântico. Cântico da floresta. Caboclo abençoado!
Fechei os olhos para absorver inteiramente a magia do momento. Privilégio. Sem contar a beleza da arquitetura da Casa das Rosas. Salões amplos, pé-direito alto, piso de mármore. Lustres majestosos, portas de vidro e madeira imensos, que dividiam, com requinte e charme, todos os ambientes do antigo casarão. O perfume de madeira das portas me inebriava. Cheiro de mato, madeira nova, árvore viva. Prazer à parte.
E, para fechar a noite, anunciaram Mariana Avena, uma das integrantes da primeira formação do grupo Raíces de América.
Meu Deus, não acreditei. Desde pequena, escuto Raíces. Sempre rolava na vitrola lá de casa o vinil do grupo. Cresci escutando esses cabras.
Oh, e como ela canta. Canta muito. Que voz, que energia maravilhosa. Chorei feito criança, pra não variar, heheh. Relembrei minha infância, minha vida, minha casa no interior de São Paulo.
Ela se emocionou também. Depois de trinta anos, estava lá para rever e homenagear o grande poeta. Lindo, lindo.
Olhos vermelhos, voz embargada para falar sobre Mercedes Sosa, companheira de jornada musical, confidente, mestra, como ela mesma declarou.
Mariana fechou o show, com "Gracias A La Vida", de Violeta Parra.
Só arrepios, naturalmente. Voltei para casa flutuando, avenida Paulista brilhava. Luzes, chuva. Muita chuva. A cidade também resolveu se emocionar e homenagear esse encontro, Thiagão, Mercedes, Mariana, a poesia, o belo, a vida...

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando (...)

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